O projeto Procurando o Eixo realizou mais uma edição propondo um debate urgente para o campo da dança: as relações entre raça, racismo, branquitude, instituições, formação artística e mercado profissional.
Ao longo de dois finais de semana, a programação reuniu palestras, mesa de debate e vivência prático-teórica, promovendo reflexões sobre os corpos que dançam, os corpos que são excluídos, os territórios ocupados pela dança e as estruturas que ainda sustentam desigualdades raciais no balé e em outras linguagens da cena.
Com entrada gratuita e classificação livre, o encontro convidou artistas, estudantes, professores, pesquisadores e o público em geral a pensar caminhos possíveis para uma dança mais crítica, diversa e comprometida com outros futuros.
A palestra Racismo e Branquitude, ministrada por Lia Vainer Schucman, discutiu o racismo como estrutura social e institucional, analisando o papel da branquitude na produção e manutenção das desigualdades raciais.
A partir da compreensão de que o racismo se sustenta por arranjos institucionais, normas e valores que naturalizam privilégios raciais e organizam hierarquias sociais, a atividade propôs uma reflexão crítica sobre os modos como essas estruturas atravessam também os campos da arte, da dança e da formação.
No encontro, a branquitude foi abordada como posição social, lugar de poder e sistema de privilégios que, muitas vezes, opera de forma invisibilizada e naturalizada nas instituições. A palestra contribuiu para ampliar o debate sobre raça e racismo na dança, convocando artistas, professores, estudantes e pesquisadores a reconhecerem as marcas da desigualdade racial e a pensarem práticas mais conscientes e antirracistas.
A roda contou com a participação de Daya Gomes, doutoranda em Performances Culturais pela UFG, artivista, escritora independente e integrante de coletivos de pesquisa, memória e performances ancestrais, com atuação voltada às histórias, ancestralidades e atravessamentos entre corpo, dança e território. Também participaram Marcos Paulo Araújo, artista, pesquisador, professor e doutor em Artes, Culturas e Tecnologias pela UFG, cuja trajetória articula educação, dança e criação coreográfica; Rousejanny Ferreira, doutora em Artes pela Universidad Nacional de las Artes, professora do Instituto Federal de Goiás e idealizadora do projeto Procurando o Eixo; e Roberto Rodrigues, doutor em Artes Cênicas pela UnB, docente do IFG e pesquisador da dança, com ênfase em experiências estéticas do cotidiano, danças populares, dança e educação.
A atividade promoveu um espaço de partilha de pesquisas, experiências e perspectivas que ampliaram os debates sobre raça e dança em contextos goianos, conectando trajetórias artísticas, acadêmicas e pedagógicas comprometidas com a reflexão crítica sobre os corpos, territórios e saberes que constituem a cena da dança em Goiás
.
A palestra, propôs uma reflexão sobre as imagens, escolhas estéticas e narrativas produzidas pela dança.
A partir da compreensão de que a imagem não é apenas ilustração, mas também construção de valores, costumes e visões de mundo, o encontro provocou o público a pensar sobre quais corpos ocupam a cena, quais histórias são contadas e quais narrativas permanecem à margem das tradições artísticas.
Com uma trajetória de mais de 30 anos de atuação em companhias públicas de dança no Brasil, Luiza Meireles conduziu a discussão a partir de sua experiência como bailarina negra, deslocando o corpo negro do lugar de objeto de pesquisa para o lugar de proponente da narrativa.
A atividade abordou questões de raça, gênero, representatividade e diversidade na dança, destacando como elencos diversos podem ampliar a complexidade estética, política e social de espetáculos e performances. A palestra também convidou o público a refletir sobre quem pode dançar, quem é visto em cena e de que maneira as plateias se reconhecem nas danças que prestigiam..
A oficina “Chão de Terreiro para as Artes da Cena na Contemporaneidade” propôs uma vivência em dança a partir de cosmovisões africano-brasileiras oriundas de comunidades-terreiro de tradição Congo-Angola.
A atividade evocou modos de “dar comida” às ações cênicas, aproximando os participantes de práticas artísticas enterreiradas e de compreensões do muntu — ser humano/pessoa na perspectiva banto — como caminho para o trabalho de consciência corporal e criação em artes negras.
Ao articular corpo, ancestralidade, ritualidade e criação, a oficina fomentou o reconhecimento do corpo cênico como corpo-espaço-ritual, ampliando possibilidades de presença, escuta e composição nas artes da cena contemporâneas.







Palestras na Íntegra
